Foto: Cláudio Kbene

O Instituto Caminho marcou presença na oficina “Vozes dos Biomas”, crucial para as discussões da COP30, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. O evento foi co-organizado pelas enviadas especiais, pela Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul e pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Realizada no dia 12 de setembro, em Porto Alegre, a oficina teve como objetivo dialogar e coletar as experiências, desafios e soluções das comunidades que vivem na Pampa, o bioma do RS.

O papel das Enviadas Especiais da Presidência da COP30 Denise Dora (Direitos Humanos e Transição Justa), Janja Lula da Silva (Mulheres) e Jurema Werneck (Igualdade Racial e Periferias) é a interlocução entre a Presidência da COP30 e a sociedade civil, ampliando o diálogo social nos debates climáticos. As contribuições coletadas serão transformadas em “Cartas dos Biomas”, que orientarão a agenda de ação brasileira para a COP30 e o período pós-conferência.

Durante o evento, o Instituto Caminho reforçou a necessidade urgente de conectar a agenda climática com as lutas por justiça social e racial. A participação se concentrou em responder às três perguntas que nortearam o diálogo.


Redesenhando a ação climática a partir das experiências de mulheres

A experiência das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 demonstrou que as mulheres estão entre os grupos mais vulnerabilizados, mas também atuam como a base da resiliência comunitária. Por isso, o planejamento deve valorizar o “cuidar” como um eixo de poder, priorizando o financiamento de redes e organizações locais lideradas por mulheres. O objetivo é converter a “injustiça em energia poderosa para resiliência e transformação”.Conforme a Enviada Especial Janja Lula da Silva, “Justiça climática só vai acontecer com a participação das mulheres. A liderança das mulheres para a resiliência em relação às mudanças climáticas é o que torna possível alcançar a justiça climática.”


O poder da equidade racial para transformar quem decide e as soluções

A crise climática é, fundamentalmente, uma crise de racismo ambiental. A tragédia no Rio Grande do Sul atingiu de forma desproporcional a população negra, quilombola e indígena. A gravidade da situação é evidenciada pelos dados: cerca de 88% das comunidades quilombolas do estado sofreram impactos diretos, com territórios totalmente afetados (ANISTIA, 2025, p. 08), e 92% dos povos indígenas foram impactados (CIMI Regional Sul, 2024). No total, 94,77% dos municípios gaúchos foram atingidos (CLIMAMETER, 2024).

Por isso, a equidade racial deve estar no centro das decisões, garantindo que a liderança de comunidades historicamente marginalizadas não seja simbólica, mas institucional. A denúncia de negligência e racismo ambiental, e o conluio de algumas autoridades com interesses privados, foram pontos-chave do debate. Além disso, a alocação de recursos demonstra a falta de prioridade para a prevenção e para a população mais vulnerável. 

No Brasil, houve uma queda de 76% no orçamento destinado à prevenção em 14 anos (GREENPEACE, 2025). No Rio Grande do Sul, dos R$ 8 bilhões até então investidos no processo de reconstrução, apenas R$ 288 milhões foram destinados a programas de assistência financeira e R$ 518 milhões para políticas habitacionais, enquanto R$ 1,4 bilhão foi para a reconstrução de rodovias e R$ 346 milhões para o setor empresarial (ANISTIA, 2025).

O Caminho defendeu a participação direta de lideranças quilombolas e de povos de terreiro nas decisões sobre o uso do solo, reconstrução e fundos climáticos, pois sua experiência e sabedoria advém de cosmologias e relações com a natureza fundamentais para o bem-viver. A reparação histórica também deve ser uma prioridade, direcionando recursos para a reconstrução de territórios mais atingidos, protegendo não apenas o espaço físico, mas também a identidade e a cultura dessas comunidades. 

 Foto: Cláudio Kbene

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